SAÚDE | 22.FEVEREIRO.2022

LER/DORT: Dúvidas e dilemas

Pouco conhecidas até a década de 1970, as LER/DORT tiveram rápido crescimento nos ambientes de trabalho em todo o mundo. No Brasil, elas são as doenças que mais afetam os trabalhadores. De acordo com o último levantamento da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, em 2019, quase 39 mil brasileiros foram afastados das suas atividades remuneradas devido a esse tipo de adoecimento.

O que fazer diante desta realidade? “Um bom ambiente de trabalho, que respeita os limites de cada indivíduo, é a principal estratégia para as empresas evitarem casos de LER/DORT entre seus funcionários. Podem ser construídas abordagens que envolvem biomecânica, gestão e organização do trabalho”, diz a fisioterapeuta Arlete Arnaldo, integrante da equipe de Promoção de Saúde e Bem-estar da It’sSeg.

Fizemos outras perguntas para Arlete sobre o combate das LER/DORT, mas antes, vamos entender melhor o significado dessas duas siglas.

 

LER e DORT são sinônimos?

Na prática, LER e DORT são usados como sinônimos, mas a teoria é um pouco diferente.

LER é o acrônimo de Lesões por Esforços Repetitivos, um termo que foi criado para identificar um grupo de alterações patológicas que atingem os músculos esqueléticos, decorrentes da sobrecarga do sistema envolvido na movimentação dos ossos. No Brasil, na década de 80, o aumento dos casos de tenossinovite entre digitadores levou os sindicatos a lutar pelo reconhecimento das lesões como doenças ocupacionais.

Somente em 1998, a Previdência Social passou a adotar em suas normas o termo DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) para adequar o conceito da síndrome que, então, já atingia milhares de brasileiros.

A introdução da nova sigla aconteceu principalmente por duas razões:

  1. a maioria dos trabalhadores com sintomas no sistema musculoesquelético não apresenta lesão em qualquer estrutura; e
  2. além do esforço repetitivo (sobrecarga dinâmica), outros tipos de sobrecarga no trabalho podem ser nocivas, como a sobrecarga estática (contração muscular por períodos prolongados), o excesso de força para execução de tarefas, uso de instrumentos que transmitam vibração excessiva e trabalhos executados com posturas inadequadas.

A preferência do termo DORT a outras siglas, segundo o INSS, tem como intuito evitar que na própria denominação sejam apontadas causas definidas (como, por exemplo, “cumulativo” nas LTC e “repetitivo” nas LER) e os efeitos (por exemplo, “lesões”).

 

Ginástica laboral é uma boa forma de prevenção das LER/DORT?

Sim. Ginástica laboral pode ser realizada diariamente, com exercícios de alongamento e/ou fortalecimento muscular que duram cerca de 5 a 15 minutos, seja antes, durante ou depois do trabalho. Também diminui o sedentarismo e suas consequências.

Outra dica é, antes de começar um movimento repetitivo (seja ele jogar vídeo game, limpar a casa ou trabalhar), faça um aquecimento simples das articulações envolvidas ou de todo o corpo para estimular a circulação sanguínea, irrigando os músculos e ossos para aguentar a tarefa sem dores.

Ioga, meditação e Tai Chi também são exercícios excelentes para evitar que lesões novas ocorram ou se agravem porque envolvem relaxamento, alongamento e fortalecimento muscular.

 

Adequar apenas o mobiliário previne a ocorrência de LER/DORT?

Não. Além da postura inadequada, outros fatores podem levar à ocorrência de LER/DORT, como: postos de trabalho mal dimensionados ou que não se ajustem às variações antropométricas de cada indivíduo, movimentos repetitivos e desorganização do trabalho.

Devemos observar, também, hábitos em casa e no lazer que podem contribuir para o surgimento de patologias osteomusculares. Por exemplo: má postura ao limpar a casa, jogar vídeo game ou assistir TV por muito tempo numa mesma posição, etc.

 

LER/DORT são incuráveis?

Não. As LER/DORT são curáveis, e é muito importante desmistificar o prognóstico dessas enfermidades. Todos esses distúrbios têm tratamento.

Nos casos iniciais, o tratamento pode ser menos complexo e abrangente; enquanto os casos mais graves, ou que não respondem ao tratamento clínico, podem ser beneficiados por procedimentos cirúrgicos e reabilitação específica.

O descanso depois de um dia de trabalho, ou quando sentir dores, é essencial para que o organismo faça a recuperação dos músculos, tendões e ossos. Isso ajudará no alívio da dor e na tensão causada pela LER/DORT.

 

Por que em um grupo de trabalhadores submetidos aos mesmos riscos, apenas uma parcela deles passa a ter LER/DORT?

Qualquer tipo de trabalho mal executado ou que não respeita os limites biomecânicos, junto com a predisposição constitucional da pessoa, pode desencadear LER/DORT.

Existem predisposições individuais que aumentam a possibilidade de um trabalhador desenvolver DORT. Diversas variações congênitas do aparelho locomotor, enfermidades associadas, estresse, distúrbios psicológicos, estilo de vida, entre outros fatores, podem contribuir para o aparecimento desses distúrbios.

 

É necessário contratar especialistas para a prevenção de LER/DORT?

Nas empresas, uma das sugestões para prevenir as LER/DORT é a ginástica laboral orientada por um educador físico ou fisioterapeuta. Um ergonomista também pode fazer um levantamento mais detalhado para a adequação dos ambientes de trabalho.

 

Todos os pacientes com LER/DORT devem ser afastados do trabalho?

De acordo com a gravidade pode ser, sim, necessário o afastamento do trabalho. Só após o diagnóstico e laudo médico será feita a perícia do INSS, que estabelecerá a indispensabilidade do afastamento para a reabilitação profissional, podendo ser readmitido para o trabalho na mesma empresa e, às vezes, numa nova função. Em casos menos graves, o funcionário pode ser recolocado em uma nova função durante o tratamento, afastando-o dos fatores causadores e/ou agravantes.

 

Reabilitação é sinônimo de troca de função?

Não. A troca de função pode até fazer parte do processo de reabilitação, mas será necessária uma equipe multidisciplinar (fisioterapia, apoio psicoterapêutico, terapia ocupacional, uso de medicamentos, trabalho corporal, hidroterapia e outras técnicas terapêuticas e, em alguns casos, cirurgias) para tratar o distúrbio.

O tratamento deve ser indicado de forma individual, levando em conta as especificidades de cada caso e considerando-se, ainda, a realidade na qual a pessoa está inserida.

A reabilitação inicia com a aceitação da doença pelo próprio trabalhador, sendo fundamental o apoio da família, dos amigos e da empresa.

 

Quais as dicas iniciais e estratégicas para as empresas evitarem casos de LER/DORT?

  • Promover aprendizagem de técnicas, condicionamento e ensinamento de posturas apropriadas por meio de treinamentos, cursos, ações internas (palestras, workshops, informativos, confraternizações, reuniões semanais);
  • Criar um espaço de comunicação aberta;
  • Seleção adequada dos funcionários para cada função;
  • Todos os instrumentos, ferramentas, acessórios, mobiliários e postos de trabalho dever ser convenientes, como também as posições, distâncias e angulações envolvidas;
  • A duração das jornadas de trabalho deve ser respeitada, assim como deve haver intervalos periódicos para recuperação, visando o descanso das estruturas osteomusculares como método de prevenção à LER/DORT;
  • Rodízio de atividades é uma estratégia que faz com que o trabalhador não permaneça muito tempo em atividades de maior exigência.

“Tudo isso somado a um estilo de vida saudável, com boa qualidade do sono, condicionamento físico e manutenção da saúde geral, proporcionará condições de executar as tarefas laborativas com os mínimos riscos de desenvolver um distúrbio osteomuscular”, avalia Arlete.

Outras referências: 

<https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/ler_dilemas.pdf>
<www.sindpdpr.org.br/artigo-saude-do-trabalhador/que-e-ler-dort-sua-historia-no-brasil>
<https://www.reumatologia.org.br/doencas-reumaticas/ler-dort/>

 

Quer ler mais artigos como esse? Cadastre-se para receber a nossa newsletter e fique por dentro das novidades no Portal RH.

 

Gestão de crônicos: empresas devem estar engajadas tanto quanto colaboradores